"O que importa a surdez dos ouvidos quando a mente escuta? A única surdez verdadeira, a surdez incurável, é a surdez da mente". - Victor Hugo

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

A verdadeira sabedoria

Em uma de minhas andanças pelo interior do Estado, mais precisamente no sertão de Sergipe. Deparei-me com uma senhora de 45 anos, mas parecia ter 60 (talvez pela vida sofrida que levara naquele lugar), que se aproximou de mim e falou:

- Trouxe meu filho de 10 anos ‘pro mode’ assistir a sua fala.

Percebendo que se tratara de uma pessoa não alfabetizada, respondi:

- Muito grato pela atenção.

- O moço é político? Perguntou-me.

- Não, Socialista.

- O moço acredita que esse país tem jeito? Interrogou-me.

E com um sorriso estampado no rosto, respondi:

- Sim, se Deus tem esperança, também devemos ter.

- Moço, Deus não tem esperança. Retrucou-me entristecida.

- Claro que tem.

- Moço, só quem tem esperança é quem não conhece o futuro, e Deus sabe de todas as coisas.

Fiquei pasmo com aquela senhora, a única coisa que conseguir perguntar depois foi a sua idade. E me interroguei: quem é o ignorante aqui, a senhora analfabeta, ou, o jovem socialista? Fiquei com a última alternativa.

Lembrei-me das palavras de Frei Betto, quando o mesmo escreveu, que ninguém escolhe ser pobre, sobreviver privado de bens elementares a dignidade humana, como a saúde, educação, alimentação, renda e oportunidade. E não ter nascido pobre não é uma questão de prêmio, mas uma responsabilidade a mais com quem não teve a mesma sorte. Já que somos sem duvidas filhos de uma loteria biológica, ninguém escolhe em que família ou a que classe social pertencer.

Aquele curto diálogo me fez repensar algumas de minhas tradicionais teorias. Ora, até então me sentia útil ao lado de jornalistas, sindicalistas, caudilhos e vereadores. Mas aquela anônima me mostrara o verdadeiro socialismo, cheguei a compreender que Marx não era ateu, o ‘deus’ que ele condenava era o ‘deus’ do capital. E não o Deus Libertador.

Percebi ainda a arrogância do Estado, em insistir com tão grande ‘violência silenciosa’, ao deixar de lado os pobres dos mais pobres – os que passam fome – e os oprimidos, nesse caso se colocando no papel de opressor. Tomei em mim uma nova visão ideológica, voltei a ler Leonardo Boff, Frei Betto, Darcy Ribeiro, Paulo Freire, Rubem Alves e Montaigne. E me transformei talvez no maior adepto da Teologia da Libertação em Sergipe.

Alguns meses após voltei àquela região para outro debate, mas não a vi, deveria ter perguntado o seu nome, quem sabe seria mais fácil localizá-la.Porém aquela senhora já havia cumprido com o seu papel de Libertadora; em um simples diálogo tirou todas as escamas de meus olhos, hoje posso enxergar que apesar da grande corrupção que assola o nosso país, existe um Deus que sabe todas as coisas e usa quem menos se espera para desacorrentar uma alma oprimida.

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