"O que importa a surdez dos ouvidos quando a mente escuta? A única surdez verdadeira, a surdez incurável, é a surdez da mente". - Victor Hugo

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Me apaixonei e fui cantada pelo psicanalista.

Oi Caio,
Neste momento tento entender o que está acontecendo comigo, vou tentar resumir um pouco para se você puder me ajudar.
Procurei no seu site, mas não encontrei nada parecido com o que estou vivendo.
Estou fazendo terapia há um ano. O motivo principal deu ter parado num consultório de psicanálise foi porque eu estava fazendo um curso de direito e comecei a questionar se eu teria vocação para exercer a profissão…
Estava (e estou cansada de tudo), teve momentos que eu não queria nem sair da cama, parei com o curso e minha vida se resume em trabalhar e ir pra casa descansar… Ainda estou com dúvida sobre o curso.
Procurei ajuda e conheci o psicanalista em questão. Nas primeiras sessões eu chegava desesperada, só chorava, e ele sempre muito profissional me atendia com amor. Houve uma época que eu não podia pagar pela consulta, e ele ofereceu a me cobrar, acho que fui criando um laço com ele. Ele é bem mais velho, acho que tem mais de 40, mas não aparenta a idade que tem, é muito bonito, fala muito bem (o que na profissão que ele exerce é de se esperar). Eu tenho 26.
Estou criando coragem pra te dizer isto porque antes da sua resposta não vou tomar nenhuma atitude…
Ele sempre me pergunta se eu estou namorando, eu digo que não, e não tenho ninguém mesmo; na verdade tem mais de 4 anos que não me relaciono afetivamente com nenhum homem, nem beijo rola; quando penso no cheiro de um homem me dá nojo; quando beijo, no inicio gosto, mas depois tenho nojo; não sou lésbica, sinto atração por homens, mas vezes acho que não preciso de um homem para me sentir feliz, completa; nunca tive um namoro sério, ou seja que durasse mais de 06 meses (isso eu não disse ao terapeuta ainda).
Certa vez ele me perguntou se eu era virgem e eu disse que sim, ele riu e perguntou se isso me incomodava; eu disse que não tenho problemas com minha virgindade, só que quando digo ninguém acredita.
Sabe moro no interior e por mais que os tempos tenham mudado, aqui virgindade ainda é tratada como um prêmio.
Fui molestada por um amigo do meu pai quando criança e por um primo também, (acho tecnicamente que sou virgem); e somente o médico sabe e me disse que meu trauma vem daí; sei lá… eu não entendo de psicanálise.
Às vezes não entendo o que ele fala. Ele sempre me elogia, diz que eu sou linda… Ele fez isso desde a primeira consulta, no fundo sei que é para melhorar minha auto-estima, pois, fui diagnosticada com depressão…
Ele me disse alguma coisa sobre sadismo e masoquismos, que eu estava me vingando dos meus pais por ter me sentido desprotegida, e com isso eu me punia também.
Sei que ele é ético, disso eu não tenho dúvida, mas estou cada vez mais me sentindo atraída por ele, já sonhei que estava fazendo sexo com ele, e sonhei também que tinha conhecido a esposa dele e que no sonho eu a admirei e senti um amor profundo por ela. Ele sempre fala da esposa dele, a elogia muito, a conheço por fotografia, mas não quero conhecê-la pessoalmente. Quando estou longe dele penso nele como HOMEM, mas quando vou às consultas o vejo como meu pai, sinto um carinho profundo por ele, sinto vontade de abraçá-lo.
Isso aconteceu uma vez quando eu contei que tinha sido molestada, chorei muito, por vergonha, nojo, medo, enfim… Ele veio e me abraçou e eu senti conforto nos braços dele. Sei que não o amo, mas não entendo o porquê desses sentimentos e tenho medo que isso passe a se tornar uma obsessão na minha vida. Às vezes vou ao consultório só para vê-lo, eu acho que ele percebe, mas eu não demonstro.
Teve uma consulta que ele disse umas palavras que me deixaram desconcertada: Ele disse desde a primeira vez que me viu que sentiu atração por mim… Eu fiquei pálida, não soube o que responder e, então, eu pensei: será que não era imaginação da minha? Será que aquilo era verdade? Então eu disse que não estava entendendo, ele riu me disse que tinha dito aquilo pra me mostrar o pavor que eu tenho quando um homem tenta se aproximar de mim.
Acho ele lindo, experiente, inteligente, tudo que me atrairia em um homem se ele fosse livre, mas ele não é; ele diz que é apaixonado pela esposa dele; só que eu só fico pensando nele…
E é por isso que busco sua ajuda, pelo que estou lendo no seu site, sei que você é uma pessoa ética e acima de tudo temente a Deus.
Por favor, me ajude!

Devo contar a ele o que sinto para que ele me oriente como lidar com esse sentimento ou não conto e deixo de fazer terapia. Não tenho coragem de dizer isso a ele. E só vou tomar uma atitude quando obtiver uma orientação sua. Sei que você é muito experiente e se tivesse acontecendo com você, você saberia lidar com isso; mas tenho medo de procurar outro terapeuta e ter que contar toda minha história novamente.
Por favor, me ajude!… - e ore por mim!
Resposta:
Minha querida amida no Senhor: Graça e Paz!
Primeiro comecemos pela razão de sua carta: seu sentimento de transferência de afetos para o psicanalista; e a aparente assimilação que ele fez do que para ele você transferiu como carência.
O fato é este:
Você é jovem e bela. Ele é homem. Fala da mulher com possível sinceridade, ou, também, quem sabe, para manter a “isenção” e ou a “proteção”.
Mas quando diz sempre que você é bela, e quando insiste em elevar sua auto-estima pela via do galanteio, ele quebra todos os princípios da psicanálise e envereda pela dúbia vereda da psico-cantada.
Parêntese: Nem Freud e nem Jung estiveram livres disso. Tiveram seus vários problemas nessa área.
Ora, quando ele disse que se sentia “atraído por você”, era isto mesmo o que ele estava dizendo.
Aliás, há muito que ele sabe que você fez a “transferência” e que você está nas mãos dele… — e isso o “excitou”.
Ao ver você corada de vergonha e desejo… — ele só viu o “corado do rosto”, e temeu! Por isso, saiu com essa de que era um “teste para você ver como se sente em relação aos homens”. Porém, ele sabe que se você tivesse dito: “Ah! Eu me sinto do mesmo jeito. O que a gente faz com isso?” — você estaria agora me contando não o que não aconteceu, mas sim como havia acontecido e como você estaria apaixonada por ele, etc. e tal.
Só não “rolou” porque você corou de vergonha e susto. Do contrário, o psicanalista estaria fazendo terapia sexual com você, na qual ele seria o médico, o remédio, a consulta e o fisioterapeuta sexual. E você… Ah! Você sempre será o experimento!
Desculpe, mas esta é a verdade; e se ele é bom só Deus sabe; no que me concerne, ele é apenas esperto e dissimulado.
Eu fico sempre muito irritado com médicos, psicanalistas, pastores, conselheiros, psicólogos, professores, padres, etc. — que usam a fragilidade das pessoas, a confiança, e a proteção do consultório e da profissão, a fim de darem essas cantadas covardes.
É covardia, manipulação e abuso!
Transferência de afetos do paciente para o terapeuta é algo comum de acontecer. É quase impossível, em certas circunstancias como a sua, que tal não aconteça.
Mas o psicanalista ou psicólogo sério, vê, discerne, encaminha na direção certa, sem alarde, e, fala no assunto apenas se o paciente avançar com proposições…
Ora, em tal caso, o profissional explica o fenômeno; e diz que a pessoa não está apaixonada por ele, mas sim pelo significado dele na vida da pessoa, dada a fragilidade e a carência [estou simplificando pra você entender]. E pronto. Pára aí. E se a pessoa insistir, o próprio profissional a transfere apara outro; pois, se a “transferência afetiva” permanece e se cronifica, nenhum tratamento dá certo.
No seu caso, infelizmente, o terapeuta se encheu de desejo pela virgem molestada e que tem nojo de homem, mas que se apaixonou por ele!
É uma lisonja para ele!
Assim, lamento informar, mas seu terapeuta deseja você, já disse isso a você, sabe de você por ele, e, na hora própria, ele espera ceifar…
Se você quiser transar com ele, então fique sendo paciente dele. Mas, também, prepare-se para enlouquecer e ficar mil vezes pior de tudo!
Portanto, mude de terapeuta. Sim! Mude e conte tudo de novo para outra pessoa. Por que você não procura uma mulher? Não é segurança total [já atendi mulheres carentes que se apaixonaram e tiveram casos com a psicóloga, e que por pouco não piraram de vez...], mas elimina bastante esse risco que é fruto da doença-carência de ambos — do paciente e do terapeuta.
Minha tristeza é que o mundo está tão doente que ninguém sabe mais nem mesmo aonde o jaleco de médico, professor… [ou seja lá o que for...], corresponde à atitude profissional que se espera do sujeito fantasiado de doutor.
Quanto ao seu nojo de homem, não se grile. O psicanalista serviu para uma coisa: mostrar definitivamente que seu nojo de homem é seletivo, e que, de fato, você apenas não encontrou alguém que a emocionasse… Até agora.
Sim! O fato de você ter sido molestada deixa marcas; mas, sinceramente, não creio que em você elas sejam tão profundas assim…
Os aspectos psicológicos de seu sentir são importantes, mas, creia: você é bem menos problemática do que imagina; e, tendo boa ajuda, ajuda isenta, simples e direta, você se ajeita interiormente rapidinho.
Não busque num homem o que seu coração só encontra em Deus!
O fato de o Psicanalista virar deus para o paciente também explica essa sua vontade de confiar…
Sua grande carência, todavia, é carência de Deus!
Leia o site e busque encher sua vida com fé e discernimento. Vá lendo… Sempre. E mais: relaxe!
Se você confiar e relaxar, creia: tudo irá para o seu próprio lugar!
É isto que por hora tenho a lhe dizer!
Receba meu carinho e orações!
Nele, que nunca usou ninguém, mas apenas serviu os que poderia usar,
Caio Fabio
Fonte: www.caiofabio.com

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