"O que importa a surdez dos ouvidos quando a mente escuta? A única surdez verdadeira, a surdez incurável, é a surdez da mente". - Victor Hugo

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Uso e abuso dos professores

Escrito por: Gabriel Perissé

Li na Folha de S. Paulo, no dia 23 de janeiro de 2010, matéria assim intitulada: "SP admite ter de usar professor reprovado".

O verbo "usar" entra pelos olhos, assalta as mentes, espanca o coração, cai torto no estômago e nos faz mal.

O verbo "usar", bem conhecemos. Eu, você, todos nós usamos o verbo "usar". Usamos e abusamos. Faço uso desse verbo porque muitas coisas eu aprendi a usar.

Uso roupa, uso computador, uso escada para subir, uso papel para escrever, uso dinheiro para comprar, uso carro para me transportar, uso de tudo que é lícito para viver humanamente.

Usar não é errado quando uso e manipulo o que é usável e manipulável: objetos a meu dispor, simples ou complexos, caros ou baratos, de qualidade ou vagabundos.

Mas usar pessoas, isso não; isso é demais da conta. Usar pessoas, jamais! Usar alguém para escalar. Usar alguém para ganhar. Usar alguém para gozar. Usar alguém para vencer. Usar alguém é coisa que ninguém deveria fazer. Usar alguém não é do bem. Usar alguém faz mal, e faz mal aos dois: a quem é usado, e também àquele que usa!

Dirão, talvez, que entendi mal. Que o título da matéria não tem maldade. Que "usar" é assim mesmo, usamos sem pensar. Que temos aí um modo de escrever inofensivo. Que estou exagerando a força da palavra. Que estou usando mal a minha capacidade de ler o jornal. Que estou vendo coisas.

Contudo, lá está, a matéria diz: os professores reprovados serão usados. Usados, concluo, porque foram reprovados. E foram reprovados porque sempre foram usados. Porque têm sido objeto de uso e abuso.

O professor fez a prova e foi reprovado. O que será que essa prova provará? Será essa prova eliminatória ou "humilhatória"? O governo de São Paulo garante que o professor, mesmo reprovado, será usado. E ele, o professor, que já se habituou a ser usado faz tanto tempo, voltará a ser temporário. Por quanto tempo?

Usado e mal pago, de manhã, à tarde e à noite, o professor se sente manipulado como uma coisa. Sem aplauso, excluso, mero parafuso, o professor aceita ser usado.

E aqueles que, useiros e vezeiros em usar os professores, humilham o docente, provam, na verdade, que não sabem servir a sociedade. E se não vivem para servir, para que servem?


Gabriel Perissé é Doutor em Educação pela USP e escritor.

Website: http://www.perisse.com.br/

O texto foi publicado no correio da cidadania


2 comentários:

Anônimo disse...

Emerson, parabéns pela sua crônica. E a notícia, tendo vindo da Educação, surpreende ainda mais.

Falando nisso, acabei de ler outro desatino deles no Edital do próximo concurso para professores de Educação Básica II (SP): A terceira etapa do concurso (a primeira é a prova, a segunda são os títulos e a terceira os exames médicos) -. Pois bem, nessa do exame médico há uma relação de 14 exames médicos, onde se incluem Eletrocardiograma,Ultrasonografia, Audiometria e até o de próstata (ou seja, exames caros ou, no mínimo, muito demorados para se fazer na rede pública). Além do mais, parece discriminatório, já que muitos professores que farão o concurso já atuam na área há muito tempo. De repente, caso tenham um problema de saúde, não servem (ao uso!) mais?
Abraço

Cissa de Oliveira

Luciana disse...

É amigo Emerson, foi-se o tempo em que a profissão de professor era respeitada. Parafraseando Jô Soares: "O material escolar mais barato que existe na praça é o professor"!

Um abraço,

Luciana