"O que importa a surdez dos ouvidos quando a mente escuta? A única surdez verdadeira, a surdez incurável, é a surdez da mente". - Victor Hugo

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Crônica do Coração I - PALAVRAS DEMAIS, PESSOAS DE MENOS



“É fácil atirar com a pólvora dos outros” já diz meu velho e amado pai.
Ao logo dos anos venho refletindo nessa frase, e a interpretação lógica que encontrei foi: palavras demais pessoas de menos.

Explico:
Pessoas egocêntricas, isto é, que só pensam em si, que só visa o próprio ego... Palavras demais pessoas de menos....

Pessoas possessivas que só conseguem atirar com a pólvora dos outros são palavras de mais pessoas de menos... Usar da inteligência e criação do outro para conseguir o desejo do ego.... É palavras de mais e pessoas de menos.

Pessoas estupidamente ciumentas que não admitem outra se aproximar nem de um amigo, e se fazem de inocentes, de coitadinhas... Palavras de mais, pessoas de menos... Pessoas que não sabem dividir uma idéia, antes se aproveitam das idéias dos demais para se autopromoverem, pessoas que falam que amam, da boca para fora... Palavras de mais pessoas de menos.

Eu nunca me esqueço do que ouvi de um ancião outro dia: “Profissionais inventaram o Titanic e amadores a Arca de Noé.” 


A Verdadeira Inteligência

Em uma de minhas andanças pelo interior do Estado, mais precisamente no sertão de Sergipe. Deparei-me com uma senhora de 45 anos, mas parecia ter 60 (talvez pela vida sofrida que levara naquele lugar), que se aproximou de mim e falou:

- Trouxe meu filho de 10 anos ‘pro mode’ assistir a sua fala.

Percebendo que se tratara de uma pessoa não alfabetizada, respondi:

- Muito grato pela atenção. Meu nome é Emerson Maciel.
- O moço é político? Perguntou-me.
- Não, Socialista.
- O moço acredita que esse país tem jeito? Interrogou-me.

E com um sorriso estampado no rosto, respondi:

- Sim, se Deus tem esperança, também devemos ter.
- Moço, Deus não tem esperança. Retrucou-me entristecida.
- Claro que tem.
- Moço só quem tem esperança é quem não conhece o futuro, e Deus sabe de todas as coisas.

Fiquei pasmo com aquela senhora, a única coisa que conseguir perguntar depois foi a sua idade. E me interroguei: quem é o ignorante aqui, a senhora analfabeta, ou, o jovem socialista? Fiquei com a última alternativa.

Lembrei-me das palavras de Frei Betto, quando o mesmo escreveu, que ninguém escolhe ser pobre, sobreviver privado de bens elementares a dignidade humana, como a saúde, educação, alimentação, renda e oportunidade. E não ter nascido pobre não é uma questão de prêmio, mas uma responsabilidade a mais com quem não teve a mesma oportunidade. Já que somos sem duvidas filhos de uma loteria biológica, ninguém escolhe em que família ou a que classe social pertencer.

Aquele curto diálogo me fez repensar algumas de minhas tradicionais teorias. Ora, até então me sentia útil ao lado de jornalistas, sindicalistas, caudilhos, vereadores, prefeitos e deputados. Mas aquela anônima me mostrara o verdadeiro socialismo, cheguei a compreender que Marx não era ateu, o ‘deus’ que ele condenava era o ‘deus’ do capital. E não o Deus Libertador.

Percebi ainda a arrogância do Estado, em insistir com tão grande ‘violência silenciosa’, ao deixar de lado os pobres dos mais pobres – os que passam fome – e os oprimidos, nesse caso se colocando no papel de opressor. Tomei em mim uma nova visão ideológica, voltei a ler Leonardo Boff, Frei Betto, Darcy Ribeiro, Paulo Freire e Rubem Alves. E me transformei talvez no maior adepto da Teologia da Libertação em Sergipe.

Alguns meses após voltei àquela região para outro debate, mas não a vir, deveria ter perguntado o seu nome, quem sabe seria mais fácil localizá-la.

Porém aquela senhora já havia cumprido com o seu papel de Libertadora; em um simples diálogo tirou todas as escamas de meus olhos, hoje posso enxergar que apesar da grande corrupção que assola o nosso país, existe um Deus que sabe todas as coisas e usa quem menos se espera para desacorrentar uma alma oprimida.