"O que importa a surdez dos ouvidos quando a mente escuta? A única surdez verdadeira, a surdez incurável, é a surdez da mente". - Victor Hugo

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Câncer, medula e política

Texto: Ernani kufeld (Teólogo e pastor da Igreja Luterana) Publicado no Jornal da Cidade.

Assim como a maioria da população brasileira, nunca me interessei por política e por doação de medula. A falta de interesse se explica pelo fato de que até aqui sempre julguei que nem um nem outro afetam. Ledo engano.

Há um mês foi diagnosticado um caso de leucemia aguda em minha família. O telefone tocou e veio a notícia: seu irmão está com câncer! Foi um choque grande o suficiente para acordar do “berço esplêndido”; do sossego da ideia de que doação de medula é algo que não me diz respeito. O tema que antes nem me interessava tornou-se o mais importante de todos neste último mês. Descobri coisas simples, mas importantes. Por exemplo: que a leucemia tem como característica a proliferação anormal de células (neoplasias malignas) na medula óssea - onde origina-se o sangue - o que pode acabar por suprimir a produção de células normais.

Tratando-se de um problema de produção de células na medula do paciente, sua grande chance está no transplante de medula. Mas é exatamente aí que está o “X” da questão. No Brasil, quando não há doador compatível na família, em média encontra-se 1 doador compatível para cada 100 mil. Aí entramos nós, os antes “deitados em berço esplêndido”, como se não tivéssemos nada com isto.

Doar medula é simples. Retira-se o líquido do osso da bacia do doador, o qual fica em média 24h em observação, recebe alta médica e volta à vida normal. Em questão de duas semanas seu organismo já repôs todo o líquido retirado. Para quem recebe, é a grande chance da vida. Doar medula é um gesto simples, mas de grande amor, que pode ser feito por todos os adultos que possuem entre 18 e 55 anos. Basta procurar um hemocentro e cadastrar-se como doador para o banco nacional de doadores.

E a política? Bem, a política é quase igual à leucemia. Nosso país sofre com a proliferação desenfreada de “neoplastos malignos”, que se multiplicam de forma desenfreada pelo corpo da máquina estatal, onde se produz as leis e se administra o Estado, enquanto nós que achamos que não temos nada com isto, continuamos “deitados em berço esplêndido” vendo o país
agonizar.

Graças a Deus temos, na família, um doador compatível para meu irmão. Mas muitos outros pacientes esperam na fila e precisam do nosso gesto de amor. Aliás, o Brasil também precisa do nosso gesto de amor. Nosso voto, quando consciente, será compatível com um futuro melhor. Se vendido ou mal usado, ajudará a produzir mais “neoplastos malignos” que infestarão nosso governo, baixando a imunidade do país, tornando-o vulnerável e sem grande chance.

Câncer, medula e política fazem parte de nosso dia a dia. Nos damos conta disso?

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