"O que importa a surdez dos ouvidos quando a mente escuta? A única surdez verdadeira, a surdez incurável, é a surdez da mente". - Victor Hugo

domingo, 17 de abril de 2011

A entrada humilde de Jesus em Jerusalém


“Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galiléia” (Mt 21, 11).

Domingo de Ramos marca o início daSemana Santa. O Messias prometido chega a Jerusalém para se entregar às mãos daqueles que vão tirar a sua vida neste mundo. Jesus chega à cidade que mata os profetas enviados por Deus para o anúncio da Boa Nova e denúncia das injustiças (cf. Mt 23, 37). Ele não foge de sua missão, apesar das tentações sofridas. Sobe ao centro religioso e político de seu tempo para realizar, plenamente, a vontade de Deus: “dar a sua vida como resgate em favor de muitos" (Mt 20, 28).

“Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens” (Fl 2, 6 – 7). Cremos e professamos que Jesus é Deus. Portanto, estas palavras do apóstolo Paulo falam da maneira como Deus quis viver no mundo: humilde, servidor e igual aos demais seres humanos.

Esvaziou-se a si mesmo

O ser humano tem a tendência de procurar a grandeza e orientar a vida segundo o espírito de grandeza. Ninguém aceita ser pequeno, todo mundo quer ser visto, valorizado, tratado como importante aos olhos do mundo. Jesus, pelo contrário, assumiu a sua missão a partir da pequenez da condição humana, esvaziando-se a si mesmo. Ele viveu a experiência do total desapego de si mesmo, das coisas e de todas as pessoas; foi um ser humano plenamente livre.

A procura da grandeza nos tira a paz e nos enche de ambições desmedidas. É aqui que surgem os variados problemas de ordem material e psicológica que afetam as pessoas. Estas querem viver cada vez mais cheias de si mesmas, apegadas e, conseqüentemente, escravas de si e de suas comodidades. E como todos não conseguem ter aquilo que desejam, a frustração passa a fazer parte da vida de muitos. Jesus precisava ser livre para fazer a vontade do Pai.

Assumindo a condição de escravo

As pessoas esperavam um Messias glorioso e poderoso, frustraram-se. De repente, aparece um homem montado num jumentinho sendo aclamado pelo povo (cf. Mt 11, 1 – 11). Que decepção! O que pode fazer um Messias montado num jumento?! A quem poderá libertar com toda esta fraqueza?!... Era a pergunta que os judeus faziam a si mesmos e uns aos outros. A cidade se agita e todos procuram saber quem é o jovem que está sendo aclamado pelas multidões.

Toda a vida de Jesus descrita nos evangelhos é uma prova clara da sua opção fundamental: o Reino de Deus inaugurado a partir dos oprimidos. Jesus optou pelo serviço até o derramamento do próprio sangue (cf. Mc 10, 45). Durante a última ceia, lavou os pés dos discípulos ensinando-os a fazer o mesmo, ou seja, servir uns aos outros (cf. Jo 13, 1 – 10). Jesus trabalhou e trabalha muito no serviço da libertação dos oprimidos deste mundo. Digo trabalha no presente do indicativo porque ele é o Emanuel, Deus conosco, presente na luta cotidiana dos empobrecidos.

Vivemos numa sociedade de aproveitadores e oportunistas. As pessoas querem tirar vantagem em tudo, não aceitam perder nada. Estão contaminadas pelo vírus do lucro a todo custo. São poucas as que vivem a experiência da gratuidade, que se manifesta na verdadeira caridade para com o próximo. Na Igreja, infelizmente, cresce o número de mercenários e diminui o número de autênticos pastores. Na consagração e na ordenação juram que vão servir, quando são enviados em missão nas comunidades exigem ser servidos. Não são todos, mas é muita gente!

Tornando-se igual aos homens

Jesus foi “provado como nós, em todas as coisas, menos no pecado” (Hb 4, 15). Jesus é a Palavra de Deus que se fez carne e habitou entre nós (cf. Jo 1, 14). Ele vivia entre os pecadores, desprezados e odiados pelos religiosos de seu tempo (Mc 2, 13 – 17). As autoridades judaicas, tanto religiosas quanto civis, não aceitavam ver o Messias acolhendo, compreendendo, curando, consolando e perdoando os pecadores públicos.

Aqueles que são considerados pecadores públicos continuam sendo caluniados e rejeitados pelas autoridades religiosas e civis de nossos dias. Certo dia, escutei de um padre as seguintes palavras referindo-se a um jovem ladrão: “Esse tipo de gente não tem jeito, só serve para morrer. Situações como esta só se resolve na bala!” Muita gente quer resolver o problema da violência através do extermínio da juventude. Até muitos “religiosos” pensam assim!

Homossexuais, prostitutas, beberrões, ladrões, adúlteros e tantos outros pecadores são considerados pessoas indignas de viver em sociedade. Não é pequeno o número de pessoas, praticantes da religião em sua maioria, que pensam no extermínio imediato de tais pecadores. Geralmente, isto acontece por dois motivos: primeiro, porque tais pessoas se julgam justas por causa de suas práticas religiosas; segundo, porque estas práticas religiosas não as convenceram de que o mandamento maior é o amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Quando se afirma que Jesus foi igual aos homens significa dizer que ele, em nenhum momento, condenou as pessoas. Esta não era a sua missão (cf. Jo 3, 17). A condenação do próximo impede a vivência da fraternidade. Jesus assumiu a condição humana porque quis ser nosso Irmão, e se quisermos fazer o mesmo precisamos aprender a não julgar o próximo. Toda forma de condenação do próximo é incompatível com o espírito fraterno. A vivência deste espírito pressupõe as experiências constantes da compreensão e da misericórdia para com o outro.

Jesus, profeta dos oprimidos

“De Nazaré pode sair coisa boa?” (Jo 1, 46), perguntou Natanael ao saber que Jesus era de Nazaré. Isto nos indica que o lugar de onde veio Jesus não era bem afamado. Deus quis que Jesus nascesse, vivesse e morresse entre os últimos da sociedade. Ele é o rei montado num jumentinho, que veio servir os empobrecidos e inaugurar o Reino. Seu serviço e comprometimento com o Reino de seu Pai o levaram à morte de cruz. Juntamente com os últimos, Jesus morre crucificado, mas o Pai o ressuscitará no terceiro dia confirmando, assim, a esperança dos oprimidos. Estes participam da vitória de Jesus, pois esta é a vontade de Deus.

Celebrar a Semana Santa é entrar em comunhão com a experiência de cruz vivida pelo povo de Deus; do contrário, tudo não passará de celebrações rituais sem vida e, portanto, sem sentido. A paixão e morte de Jesus são vividas no cotidiano das vítimas das variadas injustiças que são praticadas em nossos dias. A missão do cristão é viver a fraternidade para com estas vítimas, a fim de que a esperança se mantenha viva. A mesma coisa se pode dizer em relação à missão da Igreja.

Por: Tiago de França
Fonte: Teologia e Libertação

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