"O que importa a surdez dos ouvidos quando a mente escuta? A única surdez verdadeira, a surdez incurável, é a surdez da mente". - Victor Hugo

domingo, 30 de outubro de 2011

Sobre crianças e criações

Alana Regina Sousa*


Estar com crianças é algo engraçado e inspirador. Vivo rodeada delas e consigo ver emsimples gestos demonstrações de muita coisa bonita, muita coisa que adulto nãofaz, porque o adulto não é engraçado nem ao menos inspirador.

Algumas dessasobservações são dignas de registro. Por exemplo, o dia em que eu me aconchegavano sofá da casa da minha prima pequena e ela saltou em mim, com um feliz edespreocupado: “Vamos pintar?” e me jogou todos os lápis de cor e os cadernospara colorir. “Vamos”. Você pinta de amarelo, eu pinto de azul, ela mesmaescolhia a forma que queria. Resolvi desafiar. Não. Eu quero pintar de verde.Vocês já notaram os olhos de uma criança decepcionada, a face de uma criançacontrariada? É de dar dó. Façamos de tudo no mundo, mas não contrariemos umacriança. Creio que naquele momento insultei tanto minha priminha de 3 anostirando-lhe o direito de escolher as cores que queria ver seu cachorro. E omais interessante, ao contrário de mim, que discordei  dela, depois de toda a decepção, ela disseque estava, então, bom. Me deu o lápis verde e pegou seu lápis azul. Quandocomecei a pintar, ela ficou admirada: Que lindo! Muito bem!

Ela perguntavaonde estavam as cores quando perdia os lápis de madeira desapontados a talponto que mal conseguíamos usar. Instigante como ela perguntava pela cor e nãopelo lápis, o que a mim parecia que realmente o que está na imaginação dascrianças não é o objeto, mas sim a sensação que ele produz. Uma espécie deleitura que ela fazem do mundo, olhando as coisas não como elas de fato são,mas pela ótica do que elas representam. Não sei se consigo bem explicar. Masparece-me que a alma infantil consegue valorizar o conteúdo, sem muitapreocupação com a forma.

Sim. Acho que é isso que quero dizer. Basta observar como na imaginação de um garoto, qualquer coisa é uma bola. Uma tampinha de garrafa, uma lata de refrigerante, meia enroladas, pedras. Tudo é bola, mesmo não sendo bola. Constatei isso quando fuitrocada por uma amiguinha de minha prima que chegou e me roubou a companheira de pinturas. As duas brincavam com algumas bonecas e ouvi a conversa: “Ela está com fome.” “Dê comida a ela.” E a amiguinha deu a minha prima o livro que pintávamos, minha prima pegou. Depois deu um lápis. Alguns segundos foramsuficientes para que as duas, por pura imaginação, se entendessem. O livro era o prato e o lápis era a colher. Deu tudo certo. Foi isso que as duas meninas viram, sem necessitar de explicações.

Que bom seria se houvesse no adulto esse tipo de contentamento. Não tenho um prato, posso transformar qualquer coisa em prato. Não tenho alegria? Posso pegar outra coisae transformar em alegria. Não é bola, mas se eu quiser, vira bola.

Que bom seria se a gente conseguisse se comunicar como criança. Seria algo como poder viver avida que queremos, transformando as coisas com o poder que nos é dado via pensamento.

Sei que é lamentável para o adulto ver que não é mais criança, mas, se bem esperto fosse, fingiria que é. E daria tudo certo.

Alana Regina Sousa é Professora de Língua Portuguesa e Redação. Escritora de peças teatrais e poetisa. Blog: http://www.blogdamariarejeitadinha.blogspot.com/

Um comentário:

Sonia disse...

Que linda postagem! A criança vê sempre o lado positivo das coisas, ela cria um mundo só seu,é leve, tem uma imaginação fértil. A criança é feliz de verdade e não faz como os adultos, que muitas vezes são felizes de mentirinha.É a inocência da criança que a torna maravilhosa, inocência que nós adultos perdemos e com ela vai um pouquinho de nosso encanto, nossa leveza para com a vida.