"O que importa a surdez dos ouvidos quando a mente escuta? A única surdez verdadeira, a surdez incurável, é a surdez da mente". - Victor Hugo

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

ONE OF US

Autor: Emerson Maciel Santos

"Amanhã um estranho dirá com magistral bom senso exatamente aquilo que pensamos e sentimos o tempo todo".   - R. W. Emerson

            Tudo está me sufocando ultimamente. Falou Mariana em voz alta.
Mari costumava sentar-se na mesma praça, no mesmo banco, mas os pensamentos eram diferentes, atípicos e conturbadores. Ela sempre deixava seu pensamento sintonizado ao mundo até perceber a vivificação das consequências dos próprios atos. Para ela a onda do amar virou um tsunami, algo difícil de ser controlado e ao mesmo tempo nostálgico.
A praça é denominada de Trevo, mas parece que falta sorte aos seus ocupantes. O senhor José, conhecido por contar causos da vida contemporânea, observa a menina e tenta se aproximar, mas teme não receber a atenção devida, é um típico clássico cidadão que prefere lamentar o que não viveu e não arrisca transformar a própria condição de ser gente. Não sabe o nosso ancião que a essência da vida está na mudança e que temos um limite de tempo para viver e amar. Era isso que a garota Mariana precisava ouvir. 18 anos, com uma beleza inspiradora, com uma beleza ímpar, feito as musas descritas por Vinicius de Moraes em seus sonetos de amor.
Em outro Cenário, Francisco papeava de bem com a vida rindo e encantando os amigos cantarolando a vida sem pensar. Aqui talvez residam os desafios de todo e qualquer ser humano. Entender que a vida é alegria ou lamento. Mari fixou a cena e baixou a cabeça, como se estivesse lembrando e sentindo saudades do futuro (sic). Saudades do futuro. Ela iria levantar-se, mas ouviu gritos e risos de crianças. Maria, uma contadora de histórias, inocentemente conversava com a petizada, que soltava grito, riso e vibrava com o momento. A vida vale o intervalo que se preza. A praça trazia risos, lamentos, alegrias e gritos. A praça Trevo.
Tudo aquilo, as cenas, o sol, as flores, a grama e as pessoas impressionavam-na, mas ela não era a única a observar...
A vida é um verdadeiro espetáculo, por mais que pensemos o contrário. Alegres ou tristes a poesia nos faz viver, nos faz gente. E era justamente isso que a nossa musa procurava, gente que a fizesse sentir-se gente. Gente como ela. Gente que ame gente simples e natural, sem factoides.
Se alguém está determinado a não se arriscar a sentir dor, terá que abrir mão de viver. Pensou o poeta, que observava a cena da janela e logo pegou uma caneta e um bloco de anotações para retratar a cena. A poesia é uma fotografia formada pelas lentes das palavras.
            Muitas vezes o ser humano está cercado por pessoas, mas se sente só. Muitas vezes, também, a dor que se sente é aquela que não tem explicação. É a dor que nasce das entranhas, de lá de dentro, de bem dentro do coração, por isso que as coisas que doem nos ensinam. Pensou a jovem menina, que entre uma lembrança e outra foi deixando-se envolver-se com a brisa. O vento lançava seus cabelos negros sobre os olhos, seus pés pareciam flutuar, não era a hora da estrela, era a hora da poesia. Por isso Mariana cantava alegremente: “Yeah, yeah, God is great/Yeah, yeah, God is good”.
            Da janela o poeta observava a cena, abismado com a vida que continuava a soprar poesia.
Ao que Mariana não sabe: Toda essa narrativa passa dentro de uma poesia, na qual ela é a musa de um poeta observaDOR.
O que o poeta não imagina: Ele era uma personagem nesta narrativa, idealiza por Mariana.
E o que os leitores não entenderam: O poeta e a musa mantiveram um monólogo, que culminou em uma obra prima. Musa inspiradora, poeta personagem. Tudo terminou em uma RODA VIVA, narrada por Mariana:

Roda Viva
Emerson Maciel Santos

Sintonizo meu pensamento ao mundo...
Vejo que não existe ninguém
mais dessemelhante de mim de que eu.
A vida segue em sentido clonado
vivificando as consequências dos atos.

Na praça está José,
pensando no passado recente,
lamentando o que não viveu...

Do outro lado está Francisco,
papeando de bem com o mundo:
Cantarolando a vida sem pensar...

Maria inocentemente conta estórias,
a petizada solta riso,
vibra e curte o momento.

Da janela o poeta observa

abismado com a vida
que continua pateticamente bela!

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